quinta-feira, dezembro 20, 2007

Desejos à 2008

2008


Em 2008 espero que a humanidade consiga se distanciar um pouco da sedução do “TER” e assim, aproximar-se mais do “SER”.

Boas Festas!

Cynthia Mello Ferrari

sábado, outubro 20, 2007

SUFOCO

SUFOCO

Eu queria tanto te dizer, que eu estou pronta e, que a ténue linha entre te ter e te ser já e distante, mas não posso... Falta-me a coragem; o odor do orgulho ainda perfuma docemente o véu que cobre minhas faces e me cega para ver-te melhor. Talvez, definitivamente me entregar!

Mesmo quando penso em nosso devaneio, nego e nego e procuro saídas no presente, mas é em ti, no passado que retomo a jornada. Não me lamento, por tantos desalentos, o encanto ainda em te ter e te ser me orientam através desta poção libertina que me desvirtua e ao mesmo tempo me guia.

Sou, e não estou olhando por querer, ali, no calabouço das amargas lembranças, mas na caixa de Pandora. Sou o que sou, e quero ser em ti e em ti te ter.

Loucas palavras, que faces me mostras, por onde andas? Perguntas, reflexos do quê? Da linda coisa, que um dia disseste eu ter? Que mulher feliz eu sou por escutar tão delicada declaração de amor. Sim, eu pude? E agora, o que fazer?

Vejo-te, no olhar dos outros e me escondo no morno silêncio de uma vida, solidão? Como poderei afirmar isso, se tenho tanto para banhar-me ainda, em ti? Louca, louca...

Sem riso, com sorrisos, músicas, uma leve túnica e o sexo ardente. È assim, que me preparo para mais um momento, contigo ou com um outro, mas, lembre-se: é a ti que me entrego, na profundeza de tua boca, colada na minha. E, sem retratos, eu repasso mentalmente o traçado dela. Sensual, deverás animal.


Eu queria tê-lo aqui, agora e sempre, contudo, por ora, não posso falar, a voz teima em não sair. Não consigo te achar! E parte de mim, quer... Mais do que deveria ser em ti.

By
CYNTHIA MELLO FERRARI

terça-feira, outubro 09, 2007

SAUDADES

SAUDADES


Saudades... Remete-me a um toque, a princípio, suave da tua boca; um beijo morno... Ah! Que delícia.
Depois vem outro, mais intenso e mais outro, uma pausa... Pausa, um sorriso. O teu olhar permeado de desejo e meu corpo respondendo, ao mesmo tempo teso e acanhado. As tuas mãos... Sinto arrepios e solto um gemido, me remeto à você... Saudades...

CYNTHIA MELLO FERRARI

CORAÇÃO VALENTE

CORAÇÃO VALENTE

Coração, profundo coração bate forte sem saber que rumo estabelecer. Com muito e ao mesmo tempo, sem nada pra dizer, segue arrastado por aquilo que tenta negar: você!

Poor Coração, doce coração, iludido jogou e espalhou por aí a sensação de ser autônomo e, o pior... Feliz!

Em uma teia, emaranhado, anos permaneceu, fiel, a sabe-se lá o quê. Cochilou, cochichou e quase não escutou o tom do seu bater.

Orgulhoso coração fingiu não ouvir e tentou de tudo. Caminhos íngremes, passagens suaves, viagens e mundos imaginários, frenesis mentirosos. Contudo, e por tudo, de nada adiantou perambular.

Poor coração! Nobre Coração! No passado decidiu buscar, o porquê de tudo ser assim. Por lá, nada havia de real, somente lembranças coloridas. Magoas, dúvidas, ah! Traições... Talvez!

Inconformado o valente coração marchou em frente, sem admitir que não queria perder-te de vista.

Poor coração! Tolo coração!

Tentou ser único e não se perder em você! Sentiu a distância, o silêncio, o sexo escasso. Optou em conviver com o vazio por ... Medo de te enfrentar. Sofrer! Perder! Enfartou! Gritou forte de dor! Doeu... Ah! Como doeu! E agora?

Noites mal dormidas; poesias não escritas. Muito esforço para suplantar aquilo que parecia não poder ser ultrapassado.

Poor coração! Angustiado coração! Não consegues ser autônomo! Por fim, aceitou que te amava, mais do que parecia compreender, em uma sessão de terapia, no vazio do copo de bebida, na fumaça do teu cigarro.

Orgulhoso coração! Sempre, nas palavras murmuradas sem nexo; nas brigas dolorosas, em gestos insanos, ou nos acalantos de outros, ele sempre te guardou.

Poor coração ! Valente coração! Tentou, ainda resistir. Mas, é vencido pela coroa que tanto evitou.

Poor coração! Agora, não lhe resta mais nada! Não resista. Chega de lutar contra si. Nu a tua frente, treme emotivo, olhar perdido, suor frio. Senti dor, senti prazer que percorre latente a carne quente e vermelha. Subjuga-se como um servo fiel, explode em um orgasmo de sentimentos.

Pulsa coração, harmonioso e, finalmente se perde, em muitos outros, não em ti, ainda inseguro, mas vivo.
Coração valente! Brilhante Coração! Divino coração! Agora, já não é mais fugaz!

Por
CYNTHIA MELLO FERRARI

domingo, março 04, 2007

O VELÓRIO DA ALIANÇA

O VELÓRIO DA ALIANÇA



Eu entrei na sala mortuária, lentamente, sem saber ao certo se deveria ter vindo. Hesitei em continuar, mas sabia não ter mais alternativa, portanto avancei respirando fundo.

Aproximei-me do caixão que está lacrado ainda na esperança de revê-lo e mais! Que tudo não passe de mais uma de suas excentricidades. - Esta era a característica mais expressiva da personalidade de Ciro, e literalmente, há que mais me atraia, refleti.

Contudo, não fazia sentido permanecer frente a um caixão lacrado, já que não tinha como vê-lo. Então decide, abafar a dor e me afastar rapidamente dando alguns passos para trás.

Em seguida, percebi que quase não havia pessoas lá dentro, o calor era infernal e o suor começava descer pelas minhas têmporas, entre os seios, um misto de incomodo e medo. O aroma das flores de velório sufocava o ambiente. - Talvez as pessoas estejam por aí, respirando o ar fresco da manhã, justifiquei para me consolar.

O fato é que eu tinha um objetivo para estar ali e teria de cumpri-lo, mesmo que não concordasse, suando ou não, com local lotado ou vazio, - Será feito, afirmei.

Atrás do caixão estava a viúva: de pé, a mão esquerda apoiada no braço direito estendido ao longo do corpo, com um terninho de linho bege, cabelos presos e olhar inexpressivo. A Fisionomia era serena apesar da viuvez, o que gerou uma certa curiosidade em mim.
- Por quê tanta tranqüilidade? Heim Lídia?Foi o que senti vontade de perguntar, mas me contive para não perder a concentração. Ela estava igual as fotos, que tão bem conhecia, como a descrição de Ciro, sem emoção.

Enquanto continuava parada esperando a oportunidade de fazer o que tinha de ser feito, observei pelo canto do olho, a jovem viúva caminhar em direção as cadeiras postas nas laterais da sala, se sentar quase no final da fileira, longe das coroas de flores, do caixão e novamente colocar calmamente as mãos no colo. A nova posição de sua postura reforçou a idéia sobre tranqüilidade excessiva para uma viúva ou será dopagem de remédios? Ocorreu-me em seguida.

Mas, quem conhecia bem a história daquele casal de perto ou mesmo só de Lídia sabia que ela não reagiria de outra maneira. Sua personalidade não permitia, excessos em público.

Dei mais alguns passos, primeiro indecisos e depois cuidadosos, repassei a fala mentalmente:
- Oi, eu sou a Nina. Sinto muito... Ah! Que horror não é isso que tenho que dizer. Deus...Tudo bem! Tenho que me acalmar.Respirei profundamente e...

Fui interrompida com a visão de uma mulher muito bonita e elegante, saída, sabe-se lá de onde, aproximar de Lídia e, parar a sua frente.

Ela diz algo que não consigo escutar, acaricia com uma das mãos a face da viúva, mas discretamente, que ao contrário do que eu podia esperar, não se afasta, mas recebe o gesto expressando intimidade e de ser também de carne e osso.
- Acho que Ciro fora cruel a descreve-la para mim, algo não batia, pensei rapidamente.

A mulher não demora muito, se afasta um pouco, sorri para ela e procura uma cadeira próxima, mas não ao lado. Por que será? Quem será? Indaguei, mentalmente.

Contudo afastei as perguntas da mente e voltei novamente a atenção para a Lídia lembrando o que realmente me trouxera até ali. Continuei andando, contornei o caixão procurando esquecer a quem pertencia, mas as lembranças estavam presentes. Podia escutar a sua voz grossa, o toque firme, perfume Ralph Lauren, ele detestava aquele aroma de velório.

Já estava a poucos passos da viúva, agora não tinha mais como recuar, Lídia certamente já havia notado a minha presença há algum tempo e esperava as condolências.

Apertei a bolsa a tiracolo de encontro ao corpo para ter certeza que ainda estava ali o valioso adorno. Parei, a voz travou, olhei nos olhos de Lídia que percebeu o meu embaraço, mas continuou calada.

Eu tentei mentalmente repassar a fala que ensaiara, tantas e tantas vezes aquela noite, em frente do espelho de meu quarto. As palavras sumiam e o pior: Lídia continua mantendo o olhar firme, sem desviar, sem dizer absolutamente nada.


Eu queria sair correndo, mas não podia, jurei ao Ciro que faria aquilo se algo lhe acontecesse, mesmo que não fizesse muito sentido pra mim. Apertei novamente a bolsa contra a lateral do corpo e tomei coragem:
- Você não me conhece, eu sou Nina, sinto muito o que aconteceu com Ciro, digo baixinho enquanto Lídia continua a me fitar, sem ainda dizer nada.

Eu afasto a bolsa do corpo, coloco a mão no bolso da calça e retiro um envelope branco, dobrado ao meio todo amassado e, sem dizer nada o entrego, para a viúva.

Lídia segura-o, baixa a cabeça e antes de abrir olha novamente para mim e finalmente diz:
- O que é isso?
- Por favor, abra, digo quase sussurrando.

A jovem viúva, mantém a calma costumeira, abre o envelope e retira de seu interior uma folha de papel, desdobra-a e lê sem expressar nenhuma emoção. São poucas linhas, eu conheço o conteúdo.
- Então é você, ela afirma e eu respondo:

- Sim, sou eu, e sem dar atenção para a minha confirmação continua dizendo, - É um alívio saber que você realmente existe, assim, não me sinto tão culpada.
- Como? Exclamei, sem entender ao certo o que Lídia diz, mas esta, responde com outra pergunta: - Posso vê-la?
Surge então um outro:- Como? E em seguida, entendo a que a viúva se refere, abro a bolsa e retiro uma pequena caixa que lhe é entregue.

Lídia, abre de vagar e retira do interior da caixinha uma aliança de ouro, se volta para mim é diz: - É sua.
- Como?Respondo.
- Por favor, fique e não me diga mais: como! Tudo dito em um tom estranho, um tanto quanto sarcástico.

Fico atônita, paralisada com tudo aquilo, será que Lídia não entendeu o que dizia o bilhete? A aliança era dele, deles ou era eu que não estava entendendo mais nada. Minha missão era devolve-la, mesmo que isso custasse desvendar o nosso romance.

Diante da minha incerteza, a viúva levantou, andou em direção a bela mulher, estendeu a mão direita até alcançar à da outra, levou-a até a altura em que seus lábios pudessem toca-la e afirmou:
- Querida...Eu também tenho meus segredinhos, pode ficar com a aliança. Aliás, sabe que nome está gravado?
- Sim, Lídia.
- Não, leia, ela ordenou. Sem ter como refutar a ordem, peguei a aliança, e li o que estava gravado em seu interior: Nada.

Demorei um pouco para assimilar o que aquilo tudo significava, finalmente entendi a farsa. O meu amor por Ciro morreu naquele exato momento. E pensar que eu, no fundo sabia ter ido até lá, não para devolver a aliança de casamento deles, mas sim, para mostrar a todos que era a mim que ele amava, me senti ludibriada.

Virei-Me, passei ao lado do caixão e deixei para o seu dono levar junto com ele, preferencialmente para o inferno, aquela maldita aliança.


FIM
Cynthia Mello Ferrari










terça-feira, fevereiro 13, 2007

A ENCANTADA

A ENCANTADA


O sol brilhava imponente atrás da serra que protegia a cidade. A lua lentamente emergia com seus raios de prata e os alongava até tocarem os raios dourados do sol. O entardecer do dia tornava-se mais belo com as cores dos jardins floridos, onde o verde de suas folhas se potencializava refletidos pelas águas da cachoeira que mais pareciam espelhos provocando um convite à contemplação da natureza. Uma brisa suave soprava enquanto os pássaros cantavam e partiam em revoada cortando o céu azul, a princípio de maneira suave e aos poucos em um coro vibrante. O entorno da cidade tornava-se mágico. A impressão é que o tempo parava por alguns instantes, rendendo-se a uma força superior e retomando seu ritmo somente ao surgir as primeiras estrelas da noite. Para aqueles que acreditam em mistérios, era hora da “encantada”...

E foi, neste cenário maravilhoso que há muitos anos atrás, um jovem casal se enamorou e viveu um romance proibido. Eles se encontravam às escondidas ao pé da serra, a margem da cachoeira. Trocavam promessas, juras de amor, faziam planos e sonhavam com o dia em que a acirrada rivalidade entre suas famílias acabasse e eles, finalmente, pudessem viver livremente aquela paixão.

Um dia o casal, viu os seus sonhos correm junto com as águas da cachoeira para muito longe e, seus destinos selados de forma muito diferente a àquela que ambos aspiravam. Foram descobertos. Um escândalo na região.

A jovem sinhazinha trancada em casa e proibida de rever seu amado. O rapaz enviado para estudar na capital do Império, a cidade do Rio de Janeiro, onde ali conheceu uma outra moça, mais instruída e sofisticada. Não resistiu, e para curar a dor de amor, esqueceu de suas promessas casou-se atraído pela nova paixão. A jovem rapariga ao saber das núpcias de seu amado fugiu de casa e em um impulso voltou a cachoeira naquele dia. Ali permaneceu a noite toda a chorar até que suas lágrimas secaram e no lugar dos olhos marejados pela dor surgiu um brilho enigmático.

Dali em diante, passou a se comportar de maneira diferente. Profetizava eventos, sonhava com pessoas que iriam adoecer, com nascimentos e mortes... Suas roupas de sinhazinha foram trocadas por batas longas, simples e de cor branca.

Os cabelos, agora ficavam somente soltos e caíam em suaves cachos ruivos sobre os ombros. Os sapatos, substituídos por pés descalços e uma fita vermelha no pulso trocada pelas jóias. Por mais, que os pais tentassem remove-la da idéia de usar tal traje constrangedor, nada conseguiam.

Um famoso médico da capital foi chamado e diagnosticou: “melancolie”... E que a deixassem em paz, pois o tempo curaria a doença de amor.

Sua fama de prever acontecimentos, logo correu de boca em boca e os habitantes da região andavam léguas em busca de seus aconselhamentos e adivinhações. Todavia, algo intrigava a todos, muito mais do que seus trajes e suas profecias. Era o misterioso passeio que todas às tarde, Margarida fazia ao retornar a beira da cachoeira que testemunhara o seu grande amor.

Ela caminhava até o local e permanecia por lá até o sol se por. Não se sabia o que lá fazia criando muita curiosidade. Quando indagada a respeito do porquê do passeio diário, a resposta: - Nada de mais!

As pessoas acreditavam que a natureza compartilhava de algum segredo com a jovem. Mas qual?

Muitos tentavam segui-la, a maioria, jovens enamorados por ela, na esperança de desvendar o mistério e assim, quem sabe? Conquistá-la. Contudo, ninguém conseguia ir ao seu encontro. Parecia um encantamento, uma barreira invisível permeando o caminho. Alguns se distraíam observando a paisagem e outros com o cantar dos pássaros, porém todos se perdiam durante o trajeto e quando percebiam estavam retornando ao local de saída.

Aos poucos se espalhou histórias sobre um anjo protetor ou uma fada da cachoeira que aparecia para acalentá-la em sua dor, soprar em seus ouvidos vários encantamentos e adivinhações para as pessoas enamoradas.

Um dia, como de costume, Margarida, ao final da tarde saiu para sua conhecida caminhada a cachoeira. As horas se passaram, o dia amanheceu, porém ela nunca mais voltou. Ninguém sabe ao certo o que lhe aconteceu. Seu corpo vivo ou morto nunca mais foi encontrado. No local aos poucos floresceram um canteiro repleto de pequenas e grandes margaridas.

Este final do dia passou a ser conhecido como a “hora da encantada”, a hora dos amores impossíveis e Margarida, a sua fada ou anjo protetor para todos aqueles que ali iam, em busca de proteção.
FIM



Cynthia Mello Ferrari




















quarta-feira, janeiro 24, 2007

O DUELO

O DUELO

Era tarde da noite, a sala estava a meia luz do abajur, o silêncio além de permear o ambiente atravessava a minha alma - se é que eu a possuía uma naquela noite. Eu olhava a imagem refletida no espelho... Uma mulher dizia algo que eu não entendia. Eu me vi, mas não acreditei ser eu. Estava assustada! Os pensamentos rodopiavam sem nexo em minha mente e senti uma vertigem. Abaixei a cabeça me apoiando com as duas mãos no aparador branco, respirei profundamente, procurando afastar o delírio e tornei a me olhar no espelho. A imagem permanecia e agora sorria dizendo:
- Vai, volta lá e diz pra ele também, que você o traiu! Larga de ser cínica e enfrenta. Vai... Vai logo!
Continuei olhando a imagem no espelho e, sem entender ao certo, o que estava acontecendo me dirigi a ela endagadoramente:
- Quem é você? Estou ficando doida, pensei. Sacudi a cabeça, negando a situação e em seguida, abaixei-a, tentando fugir da imagem, mas continuei perguntando, ainda sem coragem de fitá-la. - Mas, quem é você?
Eu podia sentir aquele olhar me... A voz, determinada a ser irônica respondeu:
- Não negue quem eu sou, você sabe! Vai logo! Está perdendo a oportunidade que tanto queria. Não era isso? De repente, você esqueceu o quanto desejou que ele arrumasse alguém? Então, assuma!

Aquela frase me remeteu de novo a realidade, levantei lentamente a cabeça para causar impacto, depois com o olhar firme, desafiei a imagem do espelho, sem nada responder, porque... Não sabia o que dizer, mas só que tinha de enfrentá-la. Sem saída, me virei e olhei rapidamente toda a sala, Enrico ainda estava lá, sentado no sofá, com a cabeça baixa, apertando as mãos nervosamente. A luz refletia a cor prata que se instalava em seus cabelos ainda fartos e me lembrou que estávamos casados há muitos anos. Com passos altivos e desenvoltos, fui sentar-me ao seu lado.
- Você não, Enrico! É impossível!Comecei afirmar revoltada. Eu sempre achei que você era diferente dos outros homens! Você... Não! Nunca pensei que pudesse acontecer! Você sempre disse que casamento era para sempre! Como?
Continuei olhando Enrico que permanecia mudo. Em um impulso levantei rapidamente e retornei até o aparador, mas não olhei para o espelho. Procurei o maço de cigarros, retirei um do seu interior, acendi e dei uma tragada com os olhos cerrados, pois não me atrevia a olhar novamente para o espelho enquanto os pensamentos rodopiavam em minha mente:
- Este cara não é o homem que eu conheço. Onde está a ingenuidade dele? Que iludida!
Porém, escutei de novo, aquela voz, que parecia ser minha, mas que eu não a credenciava como tal:
- Não teve coragem! Amarelou? Vai continuar no papel de Santa? A voz de Enrico surge atrás de mim salvando-me da confrontação com o meu avesso.
- Eu sabia que você não ia me perdoar! Eu apago o cigarro, giro o corpo em direção dele enquanto indignada, eu o acuso.
- Porquê, Enrico? Por que você tinha que me contar? Pra me magoar? Humilhar?
Eu olho nos olhos de Enrico. Estes me fulminam e desvio o olhar. Enrico fica exaltado com o que digo e com as mãos segura os meus braços firme, forçando-me a continuar olhando em seus olhos enquanto ele fala.
- Você não queria saber o motivo de eu não voltar? Então é isso... Eu dormi com outra, porque? Volúpia! Tesão! Nada próximo a amor, entende?
Ele solta os meus braços e diz: - Eu desisti de nós!
Enrico fica calado após o desabafo, mas me observa esperando uma reação. Nada digo, nada faço. Saiu andando, pois precisava de um tempo para coordenar as idéias, decido após alguns segundos me sentar, vou até o sofá, sento enquanto começo a sussurrar.
- Ele não me quer faz tempo. Não me toca. Não me procura... Eu que não quis perceber!
Como não respondo, Enrico fica nervoso e começa a gritar.
- Vê? Você não escutou nada do que eu disse? Eu desisti de nós! Claudia. É isso! Eu não posso voltar mais pra casa, entendeu? Não dá! E sai andando em minha direção novamente, o seu olhar agora é um misto de raiva e aflição enquanto eu me levanto rapidamente para tentar me desvencilhar dele.O momento era muito tenso, denso mesmo, um vendaval. Doía no corpo e morria na alma.
Continuei fingindo não escutar, preferi fugir e voltar até o aparador, a ter de encará-lo. Mas... Acho que não merecia trégua naquele momento. Olhei para a minha imagem no espelho e ela novamente insistia em me afrontar.
- Você não vai deixar ele pensando que é um canalha? Só ele desistiu de vocês? Esqueceu o que disse pra ele: - O meu príncipe virou um sapo! O que esperava? Aplausos. Por Deus!Ele é um homem e não um rato. Fique feliz! Ele fez exatamente, o que você tanto desejava.Eu me senti acuada com o discurso dos dois.

Eles estavam sendo implacáveis comigo. Enrico me segue até o espelho, me gira de frente para ele, de maneira brusca e me solta em seguida como estivesse ouvido o que dizia o espelho. Em tom irônico ele diz:
- Lembra, querida? Em seguido muda o tom que passa a ser raivoso: - Eu sou um sapo! Feio e que não lhe dá segurança. Melhor! Ingênuo. Vivo tentando várias coisas, e dinheiro? Nada! Foi isso que você me disse. Esqueceu? Ele muda novamente o tom de voz para desafiado, -. Então eu decidi que merecia ter outra mulher! Pronto... Agora acabou de vez!

Enquanto ele me dizia aquelas coisas, o olhar dele refletia o seu ego vaidoso, a ira escondida por tanto tempo e a vingança finalmente desvendada. Sim, ele precisava contar, não porque era um cara honesto, ou mesmo, por estar arrependido: Era o prazer da vingança. O véu caíra. Ao mesmo tempo, o meu avesso refletido no espelho aguardava uma atitude e, eu podia sentir o sorriso nos lábios me desafiando. Viro-me para a imagem e penso triunfante:
- Não vou dizer nada! Entendeu? Mais do que tentar ferir a vaidade dele, aliás, é o que você mais quer, eu vou me calar e continuar ser a “Santa”. Esta é a máscara que escolho pra mim! Este é meu decreto!...

Enrico coloca as mãos no bolso do casaco e parti. O silêncio sela um pacto com o meu avesso e encerra meu caminho com Enrico.


****FIM****

Cynthia Mello Ferrari