terça-feira, fevereiro 13, 2007

A ENCANTADA

A ENCANTADA


O sol brilhava imponente atrás da serra que protegia a cidade. A lua lentamente emergia com seus raios de prata e os alongava até tocarem os raios dourados do sol. O entardecer do dia tornava-se mais belo com as cores dos jardins floridos, onde o verde de suas folhas se potencializava refletidos pelas águas da cachoeira que mais pareciam espelhos provocando um convite à contemplação da natureza. Uma brisa suave soprava enquanto os pássaros cantavam e partiam em revoada cortando o céu azul, a princípio de maneira suave e aos poucos em um coro vibrante. O entorno da cidade tornava-se mágico. A impressão é que o tempo parava por alguns instantes, rendendo-se a uma força superior e retomando seu ritmo somente ao surgir as primeiras estrelas da noite. Para aqueles que acreditam em mistérios, era hora da “encantada”...

E foi, neste cenário maravilhoso que há muitos anos atrás, um jovem casal se enamorou e viveu um romance proibido. Eles se encontravam às escondidas ao pé da serra, a margem da cachoeira. Trocavam promessas, juras de amor, faziam planos e sonhavam com o dia em que a acirrada rivalidade entre suas famílias acabasse e eles, finalmente, pudessem viver livremente aquela paixão.

Um dia o casal, viu os seus sonhos correm junto com as águas da cachoeira para muito longe e, seus destinos selados de forma muito diferente a àquela que ambos aspiravam. Foram descobertos. Um escândalo na região.

A jovem sinhazinha trancada em casa e proibida de rever seu amado. O rapaz enviado para estudar na capital do Império, a cidade do Rio de Janeiro, onde ali conheceu uma outra moça, mais instruída e sofisticada. Não resistiu, e para curar a dor de amor, esqueceu de suas promessas casou-se atraído pela nova paixão. A jovem rapariga ao saber das núpcias de seu amado fugiu de casa e em um impulso voltou a cachoeira naquele dia. Ali permaneceu a noite toda a chorar até que suas lágrimas secaram e no lugar dos olhos marejados pela dor surgiu um brilho enigmático.

Dali em diante, passou a se comportar de maneira diferente. Profetizava eventos, sonhava com pessoas que iriam adoecer, com nascimentos e mortes... Suas roupas de sinhazinha foram trocadas por batas longas, simples e de cor branca.

Os cabelos, agora ficavam somente soltos e caíam em suaves cachos ruivos sobre os ombros. Os sapatos, substituídos por pés descalços e uma fita vermelha no pulso trocada pelas jóias. Por mais, que os pais tentassem remove-la da idéia de usar tal traje constrangedor, nada conseguiam.

Um famoso médico da capital foi chamado e diagnosticou: “melancolie”... E que a deixassem em paz, pois o tempo curaria a doença de amor.

Sua fama de prever acontecimentos, logo correu de boca em boca e os habitantes da região andavam léguas em busca de seus aconselhamentos e adivinhações. Todavia, algo intrigava a todos, muito mais do que seus trajes e suas profecias. Era o misterioso passeio que todas às tarde, Margarida fazia ao retornar a beira da cachoeira que testemunhara o seu grande amor.

Ela caminhava até o local e permanecia por lá até o sol se por. Não se sabia o que lá fazia criando muita curiosidade. Quando indagada a respeito do porquê do passeio diário, a resposta: - Nada de mais!

As pessoas acreditavam que a natureza compartilhava de algum segredo com a jovem. Mas qual?

Muitos tentavam segui-la, a maioria, jovens enamorados por ela, na esperança de desvendar o mistério e assim, quem sabe? Conquistá-la. Contudo, ninguém conseguia ir ao seu encontro. Parecia um encantamento, uma barreira invisível permeando o caminho. Alguns se distraíam observando a paisagem e outros com o cantar dos pássaros, porém todos se perdiam durante o trajeto e quando percebiam estavam retornando ao local de saída.

Aos poucos se espalhou histórias sobre um anjo protetor ou uma fada da cachoeira que aparecia para acalentá-la em sua dor, soprar em seus ouvidos vários encantamentos e adivinhações para as pessoas enamoradas.

Um dia, como de costume, Margarida, ao final da tarde saiu para sua conhecida caminhada a cachoeira. As horas se passaram, o dia amanheceu, porém ela nunca mais voltou. Ninguém sabe ao certo o que lhe aconteceu. Seu corpo vivo ou morto nunca mais foi encontrado. No local aos poucos floresceram um canteiro repleto de pequenas e grandes margaridas.

Este final do dia passou a ser conhecido como a “hora da encantada”, a hora dos amores impossíveis e Margarida, a sua fada ou anjo protetor para todos aqueles que ali iam, em busca de proteção.
FIM



Cynthia Mello Ferrari




















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