domingo, março 04, 2007

O VELÓRIO DA ALIANÇA

O VELÓRIO DA ALIANÇA



Eu entrei na sala mortuária, lentamente, sem saber ao certo se deveria ter vindo. Hesitei em continuar, mas sabia não ter mais alternativa, portanto avancei respirando fundo.

Aproximei-me do caixão que está lacrado ainda na esperança de revê-lo e mais! Que tudo não passe de mais uma de suas excentricidades. - Esta era a característica mais expressiva da personalidade de Ciro, e literalmente, há que mais me atraia, refleti.

Contudo, não fazia sentido permanecer frente a um caixão lacrado, já que não tinha como vê-lo. Então decide, abafar a dor e me afastar rapidamente dando alguns passos para trás.

Em seguida, percebi que quase não havia pessoas lá dentro, o calor era infernal e o suor começava descer pelas minhas têmporas, entre os seios, um misto de incomodo e medo. O aroma das flores de velório sufocava o ambiente. - Talvez as pessoas estejam por aí, respirando o ar fresco da manhã, justifiquei para me consolar.

O fato é que eu tinha um objetivo para estar ali e teria de cumpri-lo, mesmo que não concordasse, suando ou não, com local lotado ou vazio, - Será feito, afirmei.

Atrás do caixão estava a viúva: de pé, a mão esquerda apoiada no braço direito estendido ao longo do corpo, com um terninho de linho bege, cabelos presos e olhar inexpressivo. A Fisionomia era serena apesar da viuvez, o que gerou uma certa curiosidade em mim.
- Por quê tanta tranqüilidade? Heim Lídia?Foi o que senti vontade de perguntar, mas me contive para não perder a concentração. Ela estava igual as fotos, que tão bem conhecia, como a descrição de Ciro, sem emoção.

Enquanto continuava parada esperando a oportunidade de fazer o que tinha de ser feito, observei pelo canto do olho, a jovem viúva caminhar em direção as cadeiras postas nas laterais da sala, se sentar quase no final da fileira, longe das coroas de flores, do caixão e novamente colocar calmamente as mãos no colo. A nova posição de sua postura reforçou a idéia sobre tranqüilidade excessiva para uma viúva ou será dopagem de remédios? Ocorreu-me em seguida.

Mas, quem conhecia bem a história daquele casal de perto ou mesmo só de Lídia sabia que ela não reagiria de outra maneira. Sua personalidade não permitia, excessos em público.

Dei mais alguns passos, primeiro indecisos e depois cuidadosos, repassei a fala mentalmente:
- Oi, eu sou a Nina. Sinto muito... Ah! Que horror não é isso que tenho que dizer. Deus...Tudo bem! Tenho que me acalmar.Respirei profundamente e...

Fui interrompida com a visão de uma mulher muito bonita e elegante, saída, sabe-se lá de onde, aproximar de Lídia e, parar a sua frente.

Ela diz algo que não consigo escutar, acaricia com uma das mãos a face da viúva, mas discretamente, que ao contrário do que eu podia esperar, não se afasta, mas recebe o gesto expressando intimidade e de ser também de carne e osso.
- Acho que Ciro fora cruel a descreve-la para mim, algo não batia, pensei rapidamente.

A mulher não demora muito, se afasta um pouco, sorri para ela e procura uma cadeira próxima, mas não ao lado. Por que será? Quem será? Indaguei, mentalmente.

Contudo afastei as perguntas da mente e voltei novamente a atenção para a Lídia lembrando o que realmente me trouxera até ali. Continuei andando, contornei o caixão procurando esquecer a quem pertencia, mas as lembranças estavam presentes. Podia escutar a sua voz grossa, o toque firme, perfume Ralph Lauren, ele detestava aquele aroma de velório.

Já estava a poucos passos da viúva, agora não tinha mais como recuar, Lídia certamente já havia notado a minha presença há algum tempo e esperava as condolências.

Apertei a bolsa a tiracolo de encontro ao corpo para ter certeza que ainda estava ali o valioso adorno. Parei, a voz travou, olhei nos olhos de Lídia que percebeu o meu embaraço, mas continuou calada.

Eu tentei mentalmente repassar a fala que ensaiara, tantas e tantas vezes aquela noite, em frente do espelho de meu quarto. As palavras sumiam e o pior: Lídia continua mantendo o olhar firme, sem desviar, sem dizer absolutamente nada.


Eu queria sair correndo, mas não podia, jurei ao Ciro que faria aquilo se algo lhe acontecesse, mesmo que não fizesse muito sentido pra mim. Apertei novamente a bolsa contra a lateral do corpo e tomei coragem:
- Você não me conhece, eu sou Nina, sinto muito o que aconteceu com Ciro, digo baixinho enquanto Lídia continua a me fitar, sem ainda dizer nada.

Eu afasto a bolsa do corpo, coloco a mão no bolso da calça e retiro um envelope branco, dobrado ao meio todo amassado e, sem dizer nada o entrego, para a viúva.

Lídia segura-o, baixa a cabeça e antes de abrir olha novamente para mim e finalmente diz:
- O que é isso?
- Por favor, abra, digo quase sussurrando.

A jovem viúva, mantém a calma costumeira, abre o envelope e retira de seu interior uma folha de papel, desdobra-a e lê sem expressar nenhuma emoção. São poucas linhas, eu conheço o conteúdo.
- Então é você, ela afirma e eu respondo:

- Sim, sou eu, e sem dar atenção para a minha confirmação continua dizendo, - É um alívio saber que você realmente existe, assim, não me sinto tão culpada.
- Como? Exclamei, sem entender ao certo o que Lídia diz, mas esta, responde com outra pergunta: - Posso vê-la?
Surge então um outro:- Como? E em seguida, entendo a que a viúva se refere, abro a bolsa e retiro uma pequena caixa que lhe é entregue.

Lídia, abre de vagar e retira do interior da caixinha uma aliança de ouro, se volta para mim é diz: - É sua.
- Como?Respondo.
- Por favor, fique e não me diga mais: como! Tudo dito em um tom estranho, um tanto quanto sarcástico.

Fico atônita, paralisada com tudo aquilo, será que Lídia não entendeu o que dizia o bilhete? A aliança era dele, deles ou era eu que não estava entendendo mais nada. Minha missão era devolve-la, mesmo que isso custasse desvendar o nosso romance.

Diante da minha incerteza, a viúva levantou, andou em direção a bela mulher, estendeu a mão direita até alcançar à da outra, levou-a até a altura em que seus lábios pudessem toca-la e afirmou:
- Querida...Eu também tenho meus segredinhos, pode ficar com a aliança. Aliás, sabe que nome está gravado?
- Sim, Lídia.
- Não, leia, ela ordenou. Sem ter como refutar a ordem, peguei a aliança, e li o que estava gravado em seu interior: Nada.

Demorei um pouco para assimilar o que aquilo tudo significava, finalmente entendi a farsa. O meu amor por Ciro morreu naquele exato momento. E pensar que eu, no fundo sabia ter ido até lá, não para devolver a aliança de casamento deles, mas sim, para mostrar a todos que era a mim que ele amava, me senti ludibriada.

Virei-Me, passei ao lado do caixão e deixei para o seu dono levar junto com ele, preferencialmente para o inferno, aquela maldita aliança.


FIM
Cynthia Mello Ferrari