quarta-feira, janeiro 24, 2007

O DUELO

O DUELO

Era tarde da noite, a sala estava a meia luz do abajur, o silêncio além de permear o ambiente atravessava a minha alma - se é que eu a possuía uma naquela noite. Eu olhava a imagem refletida no espelho... Uma mulher dizia algo que eu não entendia. Eu me vi, mas não acreditei ser eu. Estava assustada! Os pensamentos rodopiavam sem nexo em minha mente e senti uma vertigem. Abaixei a cabeça me apoiando com as duas mãos no aparador branco, respirei profundamente, procurando afastar o delírio e tornei a me olhar no espelho. A imagem permanecia e agora sorria dizendo:
- Vai, volta lá e diz pra ele também, que você o traiu! Larga de ser cínica e enfrenta. Vai... Vai logo!
Continuei olhando a imagem no espelho e, sem entender ao certo, o que estava acontecendo me dirigi a ela endagadoramente:
- Quem é você? Estou ficando doida, pensei. Sacudi a cabeça, negando a situação e em seguida, abaixei-a, tentando fugir da imagem, mas continuei perguntando, ainda sem coragem de fitá-la. - Mas, quem é você?
Eu podia sentir aquele olhar me... A voz, determinada a ser irônica respondeu:
- Não negue quem eu sou, você sabe! Vai logo! Está perdendo a oportunidade que tanto queria. Não era isso? De repente, você esqueceu o quanto desejou que ele arrumasse alguém? Então, assuma!

Aquela frase me remeteu de novo a realidade, levantei lentamente a cabeça para causar impacto, depois com o olhar firme, desafiei a imagem do espelho, sem nada responder, porque... Não sabia o que dizer, mas só que tinha de enfrentá-la. Sem saída, me virei e olhei rapidamente toda a sala, Enrico ainda estava lá, sentado no sofá, com a cabeça baixa, apertando as mãos nervosamente. A luz refletia a cor prata que se instalava em seus cabelos ainda fartos e me lembrou que estávamos casados há muitos anos. Com passos altivos e desenvoltos, fui sentar-me ao seu lado.
- Você não, Enrico! É impossível!Comecei afirmar revoltada. Eu sempre achei que você era diferente dos outros homens! Você... Não! Nunca pensei que pudesse acontecer! Você sempre disse que casamento era para sempre! Como?
Continuei olhando Enrico que permanecia mudo. Em um impulso levantei rapidamente e retornei até o aparador, mas não olhei para o espelho. Procurei o maço de cigarros, retirei um do seu interior, acendi e dei uma tragada com os olhos cerrados, pois não me atrevia a olhar novamente para o espelho enquanto os pensamentos rodopiavam em minha mente:
- Este cara não é o homem que eu conheço. Onde está a ingenuidade dele? Que iludida!
Porém, escutei de novo, aquela voz, que parecia ser minha, mas que eu não a credenciava como tal:
- Não teve coragem! Amarelou? Vai continuar no papel de Santa? A voz de Enrico surge atrás de mim salvando-me da confrontação com o meu avesso.
- Eu sabia que você não ia me perdoar! Eu apago o cigarro, giro o corpo em direção dele enquanto indignada, eu o acuso.
- Porquê, Enrico? Por que você tinha que me contar? Pra me magoar? Humilhar?
Eu olho nos olhos de Enrico. Estes me fulminam e desvio o olhar. Enrico fica exaltado com o que digo e com as mãos segura os meus braços firme, forçando-me a continuar olhando em seus olhos enquanto ele fala.
- Você não queria saber o motivo de eu não voltar? Então é isso... Eu dormi com outra, porque? Volúpia! Tesão! Nada próximo a amor, entende?
Ele solta os meus braços e diz: - Eu desisti de nós!
Enrico fica calado após o desabafo, mas me observa esperando uma reação. Nada digo, nada faço. Saiu andando, pois precisava de um tempo para coordenar as idéias, decido após alguns segundos me sentar, vou até o sofá, sento enquanto começo a sussurrar.
- Ele não me quer faz tempo. Não me toca. Não me procura... Eu que não quis perceber!
Como não respondo, Enrico fica nervoso e começa a gritar.
- Vê? Você não escutou nada do que eu disse? Eu desisti de nós! Claudia. É isso! Eu não posso voltar mais pra casa, entendeu? Não dá! E sai andando em minha direção novamente, o seu olhar agora é um misto de raiva e aflição enquanto eu me levanto rapidamente para tentar me desvencilhar dele.O momento era muito tenso, denso mesmo, um vendaval. Doía no corpo e morria na alma.
Continuei fingindo não escutar, preferi fugir e voltar até o aparador, a ter de encará-lo. Mas... Acho que não merecia trégua naquele momento. Olhei para a minha imagem no espelho e ela novamente insistia em me afrontar.
- Você não vai deixar ele pensando que é um canalha? Só ele desistiu de vocês? Esqueceu o que disse pra ele: - O meu príncipe virou um sapo! O que esperava? Aplausos. Por Deus!Ele é um homem e não um rato. Fique feliz! Ele fez exatamente, o que você tanto desejava.Eu me senti acuada com o discurso dos dois.

Eles estavam sendo implacáveis comigo. Enrico me segue até o espelho, me gira de frente para ele, de maneira brusca e me solta em seguida como estivesse ouvido o que dizia o espelho. Em tom irônico ele diz:
- Lembra, querida? Em seguido muda o tom que passa a ser raivoso: - Eu sou um sapo! Feio e que não lhe dá segurança. Melhor! Ingênuo. Vivo tentando várias coisas, e dinheiro? Nada! Foi isso que você me disse. Esqueceu? Ele muda novamente o tom de voz para desafiado, -. Então eu decidi que merecia ter outra mulher! Pronto... Agora acabou de vez!

Enquanto ele me dizia aquelas coisas, o olhar dele refletia o seu ego vaidoso, a ira escondida por tanto tempo e a vingança finalmente desvendada. Sim, ele precisava contar, não porque era um cara honesto, ou mesmo, por estar arrependido: Era o prazer da vingança. O véu caíra. Ao mesmo tempo, o meu avesso refletido no espelho aguardava uma atitude e, eu podia sentir o sorriso nos lábios me desafiando. Viro-me para a imagem e penso triunfante:
- Não vou dizer nada! Entendeu? Mais do que tentar ferir a vaidade dele, aliás, é o que você mais quer, eu vou me calar e continuar ser a “Santa”. Esta é a máscara que escolho pra mim! Este é meu decreto!...

Enrico coloca as mãos no bolso do casaco e parti. O silêncio sela um pacto com o meu avesso e encerra meu caminho com Enrico.


****FIM****

Cynthia Mello Ferrari