Monsieur Mirrow
Em minha profissão, deixar se seduzir por um lindo par de pernas feminino, um decote convidativo ou um olhar misterioso pode ser fatal. Eu não sou o tipo de profissional que se impressiona tão facilmente com os dotes acima descritos, por isso sou muito procurado e respeitado. Trabalho diariamente com a beleza feminina, permeada por seus segredos e peculiaridades e, vale ressaltar que o estético abarca muito mais que a aparência física, o que me leva a ser extremamente cauteloso antes de dar um parecer conclusivo.
Portanto, não posso, avaliar de maneira leviana, tenho que levar em conta diversos aspectos, um conjunto de quesitos que vão desde a estética corporal passando pelo tom de voz e a desenvoltura ao falar de cada consulente até a postura física, o modo de se vestir e a personalidade. Uma má avaliação pode ser desastrosa e gerar problemas futuros e danosos, não só para elas como também para mim.
Já perdi a conta de quantas mulheres atendi, sou conhecido por ser um expert no assunto honrando a tradição familiar. Às vezes, algumas delas me acham um tanto cruel, mas é preferível do que iludi-las ao pensarem que são maravilhosas. Contudo e, apesar do meu currículo incontestável há pouco tempo recebi uma visita inusitada de duas lindas mulheres que por pouco quase macularam a minha imagem.
Elas adentraram a loja em que trabalho repentinamente: uma era loira e a outra é morena. A primeira tinha um tipo de beleza clássica enquanto a segunda totalmente exótica. Em uma rápida avaliação era difícil determinar quem era a mais bela.
De longe pude sentir o aroma de seus perfumes disputando a permanência única do espaço e, sem conseguirem se misturar, as fragrâncias avançavam com elas em minha direção causando-me uma vertigem passageira.
As beldades em questão pararam a alguns passos de mim, se entre olham sem saber ao certo se eu, era quem buscavam. Depois se voltaram em minha direção e finalmente falaram:
- Bonjour, senhor! Disse, a loira de lábios vermelhos fazendo um biquinho enquanto a morena complementava a frase, - Estamos procurando, Monsieur, Mirrow. Você o conhece?
- Bom dia, senhoritas. Por favor, sentem-se.
O silêncio tomou conta do ambiente, não me atrevi a dizer nada mais, pois ainda estava acometido pela tontura e, como se adivinhassem os meus pensamentos deram continuidade à conversa:
- Eu sou, Helena, apresentou-se à loira, com um ligeiro sotaque de francês.
- E eu, sou Carmem, complementou a morena.
Nada disse para ganhar mais tempo. O movimento da loja parece estar suspenso.A impressão que tenho é que somente nos três, temos permissão de caminhar no tempo. Decido então, responder a pergunta de Helena.
- Eu sou, Mirrow. Em que posso ajudá-las? Respondo, em tom educado.
Elas sorriem com a apresentação e simultaneamente começam a falar. Fica impossível de entendê-las, portanto sou obrigada intervir, mas como um cavalheiro – aliás, virtude muito elogiada pelas almas femininas.
- Senhoritas, senhoritas, por favor... Por favor, uma de cada vez. Se não, não consigo entendê-las. Assim, fica difícil!
Repeti as frases dezenas e, dezenas de vezes. Contudo, estava adorando, pois enquanto as duas falavam juntas, eu as observava e ganhava um tempo antes do...
- Ola! Fale você, então. Propôs, Carmem depois de um tempo.
- Merci, querida, disse Helena, em um tom que soava fingimento puro, enquanto se voltava pra mim:
- Monsieur Mirrow precisamos muito do seu parecer a respeito de um impasse surgido dias atrás. Sozinhas não conseguimos resolver e, todas as vezes que consultamos outros profissionais de beleza, estes também ficaram com dúvidas e não souberam responder. Portanto, decidimos recorrer ao senhor que é o maior especialista no assunto.
Neste ponto, percebi que não tinha mais como evitar o inevitável. Sorri e acenei com a cabeça concordando com elas. A jovem loira dobrou as pernas sensualmente deixando os joelhos à vista e, muito mais... Uma forma de tentar me seduzir, lógico!
- Queremos que seja parcial. Pense muito bem como vai responder, pois o nosso destino depende do seu julgamento. - Que presunção! Pensei comigo, sem nada comentar aguardando a pergunta tão conhecida por mim. E antes mesmo de ter terminado o raciocínio, novamente juntas elas falaram:
- Monsieur, Mirrow... Quem de nos é a mais bela?
Ufa! Ainda bem que não perguntaram: - Existe alguém mais bela do que nós?
Certamente não deixei que percebessem o alívio que senti, e respondi o seguinte:
- Senhoritas, você sabem que sou muito procurado, por ser um profissional exigente e parcial em meus pareceres. Realmente, vocês são muito bonitas, cada qual com um tipo muito diferente fisicamente, porém perfeitos em seus biótipos. Entretanto, não posso avaliá-las somente pelo aspecto externo, mas também por outros quesitos relacionados as suas personalidades.
Carmem, mais latina, passional não agüentou a cutucada e respondeu afiada:
- Vejo, que também não consegue decidir qual de nós e a mais bela. Eu por exemplo, cuido muito da minha alimentação. Como você pode notar, sou magra e minha pele tem um viço fantástico.Uso máscara semanal e durmo cedo; bebo somente socialmente e meus cabelos recebem os melhores tratamentos existentes.
Neste ponto, a beldade foi interrompida, pois Helena não agüentou tanta demonstração de “cuidados” pela concorrente e disse em tom convicto:
- Não seja, por isso, Sr. Mirrow! Eu freqüento, os melhores salões de beleza de Paris à Nova York. O tom do meu cabelo é muito invejado, faço ginástica com o melhor personal training da atualidade. A minha dieta é copiada por centenas de mulheres, pois foi especialmente elaborada por uma nutricionista e um medico ortomolecular. Só uso modelos exclusivos, falo seis idiomas e...
- Bem, querida, eu também uso o mesmo personal training. Esqueceu-se, que fui eu que o indicou? Você sempre se acha a melhor, não é? Disse, ironicamente Carmem.
Bem, amigos as duas continuaram falando sobre suas supostas qualidades estéticas e mentais ainda por um bom tempo enquanto eu, não dizia nada e só observava. Aliás, chegou a um ponto que elas nem iriam me escutar mesmo que eu quisesse fazê-lo, pois estavam mais preocupadas com o embate que travavam entre elas. Que encrenca, eu estava metido!
Mas um pouco de sorte, também é essencial para um profissional e fui salvo por outra senhorita que entrou na loja tão calmamente que nem eu, nem as beldades percebemos. Ela se aproximou e gentilmente nos interrompeu:
- Por favor, com licença. Eu gostaria de marcar uma consulta de estilo com o Monsieur Mirrow, ele está?
Tanto a loira quanto à morena pararam de falar ao ouvir a voz melodiosa da jovem atrás delas. Eu voltei a minha atenção para aquela figura luminosa a minha frente e respondi:
- Com todo prazer, mademoseile. Eu sou Mirrow e assim, que acabar de atender as senhoritas aqui, poderemos marcar o melhor dia e horário para atendê-la.
Voltei-me para as outras duas mulheres e me ocorreu na hora seguir as instruções de meu tataravô nestes casos: enfrentar e não mentir.
- Senhoritas, Carmem e Helena. Vocês são belas, muito, aliás! Certamente temos um empate neste caso. Entretanto, não gostaria de desempatar jogando uma moeda para o ar como cara ou coroa. Se vocês me tivessem feito outra pergunta seria muito mais fácil obterem a resposta. Para finalizarmos a angustia que se encontram e facilitar o processo, eu mesmo vou formular a pergunta no lugar de vocês, assim teremos finalmente um desempate.
As criaturas ficaram estáticas e acenaram com as cabeças concordando com a minha sugestão. Os olhos das fogosas criaturas brilharam, os perfumes se intensificaram.
- Então vamos lá! A pergunta deveria ser a seguinte: Sr Mirrow, existe alguém mais bonita do que nós? Eu então responderia, sem dúvidas. Sim, queridas: a Srta. Esperança.
- Como? Responderam em coro.
- A mulher mais bonita do planeta é ela. E apontei para a jovem que nos olhava sem entender nada.
Foi assim, que quase perdi a minha reputação quando a Vaidade e a Soberba, um dia resolveram saber quem era a mais bela entre elas. O juiz escolhido por elas: era eu!
FIM
Cynthia Mello Ferrari