domingo, outubro 29, 2006

PAPO DE IMORTAL

PAPO DE IMORTAL


Que tal bater um papo com um imortal? Estranho? Certamente pode ser um daqueles momentos dito inesquecíveis e que de alguma forma devem ficar gravados para a posteridade. Como, assim? Por ora, não vou dar explicações para que a curiosidade instalada os leve mais à frente.

Tudo começou após um estressante dia contemporâneo, ao me deparar com um dilema profissional, bem no estilo de: Sou ou estou?

Depois de muita energia gasta pensando a respeito, decidi me concentrar novamente na tela branca do computador quando, do nada, uma figura surgiu sentada a minha frente com um sorriso desafiador:
- Está rindo, do que? Foi a minha primeira reação, irritada com aquele sorriso.
- Do seu desgaste.
- Do meu desgaste, oras! Respondi.
Era só o que me faltava hoje. Delírios. Pensei, aturdida. Decidi ignorar o devaneio e voltei novamente à atenção para a suposta aula sobre ética que deveria elaborar. Mas, a figura literalmente não queria ficar calada e continuou...
- Travar um diálogo existencial com o nosso "eu interior", às vezes é deveras assustador, contudo necessário. Por isso, vim te ajudar.

Tirei os olhos novamente da tela e, continuei sem saber muito bem, o que estava acontecendo.Como diriam os meus filhos: o dia fora punk , o melhor mesmo era relaxar e deixar rolar, pois aquilo agora, era demais.
- Então ta. O que você quer? Ah! Primeiro quem é você?
- Sou alguém que já pensou muito sobre tudo na vida. Não importa, quem sou. E sim, que pretendo ajudar, se... É lógico, você deixar.
- Ótima resposta. Desculpe, mas tenho muito o que fazer. Talvez outro dia possamos continuar este...
- Bate papo, complementou a figura. Olhei para ele e o sorriso que a princípio parecia desafiador agora tinha uma outra roupagem. Qual? Ainda não conseguia identificar e sendo assim, resolvi “dialogar” com o Sr. Ninguém - mais pela curiosidade despertada em mim.

- Ok! Cinco minutos, tudo bem? Tenho que acabar o que nem ainda comecei e...
- Vou interromper, pois estamos perdendo tempo. O que mais te angustia hoje é não saber aonde encontrar a felicidade? Ou ser medíocre no que faz?

Não responda e, escute somente. Se você se rebelar e não aceitar as regras o que acontecerá?
Olhei para ele, mas um estopim suou em minha mente:
- Nossa! É bem isso. A figura continuou me questionando enquanto eu ainda não tinha nem conseguido encontrar respostas ou melhor significados para as duas primeiras questões levantadas.
- Já pensou em se reinventar? Difícil, contudo possível.

Você sabe que é livre para escolher. Mas, lembre-se: são as escolhas que traduzem que tipo ser humano você é. Você já se perguntou: Que tipo de ser humano sou? Por que tenho que seguir as regras e ser tão utilitária? Sim, eu sei que temos que sobreviver, mas há que preço? O preço de concordar com a exploração sua e alheia?

Neste ponto, a minha angustia- não mais mascarada, tinha duplicado. Não, triplicado, entretanto a figura permanecia calma.
- Como ensinar ética se eu não consigo exercitá-la a contento? A frase saiu em um desabafo.
O meu interlocutor não se abalou nem um pouco e continuou:
- O maior desejo da humanidade e se tornar mais humana. Ser um exemplo de fraternidade para se convencer que se elevou a acima da categoria do animal irracional.

E você, há que fraternidade pertence? Há que finge ser humana ou a que quer se tornar humana? Se for a primeira, boa sorte! Se decidir pela segunda, bem vinda ao campo dos dilemas.
Dizendo isto, ele se levantou e foi saindo da minha sala quando eu lhe interpelei:
- Ei, ei ...Quem é você? Espera! Não pode ir embora desse jeito. Diga, ao menos quem é? Ele se voltou e respondeu em tom sério:
- Você ainda, não sabe? Eu sou o Ari, para os pensantes.
- Ari?

- Sim, mas dependendo da sua escolha posso voltar a ser Aristóteles, o filosofo! E saiu andando. Ainda tentei pará-lo quando o telefone tocou e....
Acordei do cochilo debruçada em cima do computador, pronta para fazer a minha escolha.
E você já sabe o que quer escolher ser?

Cynthia Mello Ferrari

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